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Número atual: Junho 2013 - Volume 20  - Número 2


ARTIGO ORIGINAL

Câncer de pulmão: reabilitação

Lung neoplasms: rehabilitation


Rebeca Boltes Cecatto; Elisangela Marinho Pinto Almeida; Maíra Saul; Christina May Moran de Brito; Rodrigo Guimarães Andrade; Marta Imamura; Chennyfer Dobbins Paes da Rosa; Wanderley Marques Bernardo; Linamara Rizzo Battistella

DOI: 10.5935/0104-7795.20130011




Autoria: Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação

Elaboração Final: 21 de junho de 2013


DESCRIÇÃO DO MÉTODO DE COLETA DE EVIDÊNCIA

Foram revisados artigos nas bases de dados do MedLine (PubMed) e outras fontes de pesquisa, sem limite de tempo. A estratégia de busca utilizada baseou-se em perguntas estruturadas na forma P.I.C.O. (das iniciais "Paciente", "Intervenção", "Controle", "Outcome").

Foram utilizados como descritores (MeSH terms):

PERGUNTA 1: Lung Neoplasms AND (Exercise Therapy OR Exercise OR Exercise Movement Techniques OR Resistance Training OR Muscle Stretching Exercises OR Breathing Exercises);

PERGUNTA 2: Lung Neoplasms AND Exercise OR Exercise Therapy AND Preoperative AND Pulmonary Complications;

PERGUNTA 3: Lung Neoplasms AND (Physical Therapy Modalities OR Exercise OR Exercise Therapy) AND (Dyspnea OR Breathing Disorders);

PERGUNTA 4: Lung Neoplasms AND (Physical Therapy Modalities OR (Exercise OR Exercise Therapy) AND Postoperative Period AND (Fatigue OR Cancer-Related Fatigue);

PERGUNTA 5: (Cognitive Therapy OR Psychoeducational Intervention) AND (Lung Neoplasms) AND (Quality of Life);

PERGUNTA 6: (Lung Neoplasms OR Lung Cancer) AND (Exercise OR Physical Fitness OR Exercise Therapy OR Physical Fitness OR Physical Activity) AND (Exertion OR Exercise Tolerance)

PERGUNTA 7: (Creatine Supplementation AND Neoplasm) OR (Creatine Supplementation AND Cancer) OR (HMB Supplementation AND Neoplasm) OR (HMB Supplementation AND Cancer)

PERGUNTA 8: ("Paullinia" OR Paullinia Cupana OR Guarana) AND ("Neoplasms"[Mesh] OR Cancer OR Fatigue)

Estes descritores foram usados para cruzamentos de acordo com o tema proposto em cada tópico das perguntas P.I.C.O. Após análise desse material, foram selecionados os artigos relativos às perguntas que originaram as evidências que fundamentaram a presente diretriz.

GRAU DE RECOMENDAÇÃO E FORÇA DE EVIDÊNCIA:

A: Estudos experimentais ou observacionais de melhor consistência.
B: Estudos experimentais ou observacionais de menor consistência.
C: Relatos de casos (estudos não controlados)
D: Opinião desprovida de avaliação crítica, baseada em consensos, estudo fisiológicos ou modelos animais.

OBJETIVOS:

Oferecer informações sobre o tratamento de reabilitação de pacientes com câncer de pulmão.

PROCEDIMENTOS:

Intervenções terapêuticas de reabilitação para as principais manifestações clínicas que comprometem a qualidade de vida, funcionalidade e atividades da vida cotidiana dos pacientes com neoplasia de pulmão, no âmbito biopsicossocial.

CONFLITO DE INTERESSE:

Nenhum conflito de interesse declarado.


INTRODUÇÃO

O câncer de pulmão é um dos tumores malignos mais frequentes no Brasil e no mundo.1,2 Em 2008, foi o câncer mais diagnosticado nos Estados Unidos e também a principal causa de morte oncológica em homens.1,2

No momento do diagnóstico, mais de 50% dos pacientes com câncer de pulmão já têm doença metastática.3

Quanto às manifestações clínicas, tosse, dispneia, hemoptise, dor torácica e rouquidão são sintomas frequentes. Tosse geralmente está presente em 50-75% dos pacientes.3

Dispneia também é um sintoma comum já no momento do diagnóstico, ocorrendo em aproximadamente 25% dos casos.3 Ela pode ser decorrente de: obstrução das vias aéreas extrínsecas ou intraluminal, pneumonite obstrutiva ou atelectasia, disseminação do tumor, linfangite, êmbolos do tumor, pneumotórax, derrame pleural e derrame pericárdico com tamponamento.

Essas e outras manifestações clínicas podem comprometer a funcionalidade e qualidade de vida, além de comumente estarem associados à fadiga nessa população.

Portanto, assim como em outros tipos de câncer e doenças crônicas, existe uma preocupação crescente em busca de opções terapêuticas que reduzam a fadiga, melhorem os sintomas clínicos, físicos e psíquicos e, com isso, melhorem a qualidade de vida.

Sendo assim, as intervenções de reabilitação, com destaque para o exercício terapêutico supervisionado, constituem potenciais alicerces para o tratamento adjuvante desta população. O Programa de Exercício Supervisionado constitui uma intervenção terapêutica recomendada para muitos pacientes com câncer, entre eles, o câncer de pulmão, o que vem impulsionando os estudos científicos na área e ampliando o conhecimento sobre seu efeito nas diferentes manifestações clínicas.

O objetivo desta diretriz é avaliar a eficácia das estratégias de reabilitação para as condições clínicas mais comuns e de maior impacto na evolução clínica destes pacientes.


SESSÃO TERAPÊUTICA

1. Quais são os efeitos do exercício físico nos pacientes com câncer de pulmão?

O treino supervisionado de fortalecimento e mobilidade, duas vezes ao dia, nos cinco primeiros dias do pós-operatório de cirurgia para resseção de neoplasia de pulmão, seguido de exercícios domiciliares, por um período de 12 semanas, realizados diariamente e baseados nas orientações feitas por um fisioterapeuta durante a internação (constituído de caminhada no limite do paciente, marcha estacionária e exercícios em bicicleta horizontal, com a intensidade entre 60% e 80% da frequência cardíaca máxima, por 5-10 minutos, associado a treino de fortalecimento de membros inferiores com carga inicial de 0,9 kg até 1,8 kg), melhora a força do quadríceps (p = 0,04) nos primeiros cinco dias após a cirurgia, mas não reduz tempo de internação nem melhora a qualidade de vida (p > 0,05) nem a tolerância ao exercício (p = 0,89)4 (A).

Exercícios domiciliares, realizados diariamente no período pré-operatório, não têm impacto positivo na percepção de saúde do paciente, mas melhora a capacidade de participar das mudanças e, consequentemente, pode ter efeito positivo na percepção do bem-estar em pacientes com câncer de pulmão5 (A).

Exercícios respiratórios associados ao treino aeróbico por 30 minutos, com 50% da frequência cardíaca máxima, realizados diariamente, cinco dias por semana durante quatro semanas, em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, candidatos à ressecção de pulmão por câncer não pequenas células, melhoram a capacidade ao exercício (p < 0,001)6 (B).

Exercícios respiratórios associados à bicicleta estacionária, exercícios de membros superiores e inferiores de baixa a moderada intensidade e caminhada, supervisionados, com duração de 90 minutos, diariamente, por um período de sete semanas, aumenta a função física, embora não melhore a capacidade pulmonar e qualidade de vida em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão inoperável7 (B).

Pacientes com diversos tipos de câncer melhoram a fadiga após programa com treino aeróbico, associado a exercícios resistidos de tronco, membros superiores e inferiores (com carga de treinamento entre 30-100% de uma repetição máxima), numa frequência mínima de duas vezes por semana, no período pós-tratamento com radioterapia ou quimioterapia8,9 (A) e também pacientes com câncer de próstata, durante a radioterapia, têm benefícios na qualidade de vida com um programa de exercícios aeróbicos supervisionado associado ao treino resistido10 (A).

O exercício aeróbico supervisionado com intensidade de 80% da frequência cardíaca máxima, realizado diariamente, por três semanas, reduz os sintomas de fadiga em pacientes com diversos diagnósticos de câncer (pulmão, estômago, cólon e reto) após o tratamento cirúrgico11 (B). O treino aeróbico também tem efeitos benéficos na qualidade de vida em pacientes sobreviventes de câncer de mama12 (A).

Um programa de exercícios resistidos melhora o bem-estar em pacientes com vários tipos de câncer avançado durante a radioterapia,13 (A) e também melhora a qualidade de vida em pacientes com câncer de mama durante o tratamento oncológico (quimioterapia, radioterapia ou cirurgia)14 (A).

Um treino supervisionado de flexibilidade melhora de forma significativa a qualidade de vida de pacientes com câncer, de jovem a média idade, pouco tempo após a quimioterapia15 (A).

Recomendação

Embora os poucos estudos com pacientes com câncer de pulmão não tenham revelado resultados consistentes4-7 recomendamos para estes pacientes a prática regular (pelos menos 150 minutos por semana, distribuídos ao longo de cinco dias) e, inicialmente, supervisionada de exercícios físicos, aeróbicos e resistidos, isolados ou associados, pois os poucos estudos com essa população não são suficientes e adequadamente desenhados para concluirmos que o exercício não traz benefício nos sintomas da doença, na fadiga e na qualidade de vida nessa população, nossa recomendação baseia-se em benefícios do exercício físico comprovados em estudos cuja população foi pacientes com diversos tipos de câncer e em diversas fases do tratamento oncológico.

2. O exercício físico pré-operatório diminui as complicações pulmonares no pós-operatório em pacientes com câncer de pulmão?

A ocorrência de complicações pós-operatórias diminui significativamente de 16,7% para 3% quando é realizada fisioterapia respiratória e exercícios aeróbios de forma intensiva na semana que precede a cirúrgia de ressecção tumoral de pulmão quando comparado à fisioterapia respiratória regular (p < 0,05).16

Fisioterapia pré-operatória e reabilitação pulmonar trazem benefícios para pacientes com indicação de ressecção pulmonar por neoplasia. Observa-se melhora da capacidade e preservação da função pulmonar após a cirurgia, porém não há associação clara na redução da incidência de complicações pós-operatórias.17

Recomendação

Podem-se recomendar exercícios aeróbios associados à fisioterapia respiratória de forma intensiva no pré-operatório de pacientes hígidos com indicação de ressecção pulmonar por neoplasia de pulmão, pois demonstram ter capacidade de melhorar a capacidade pulmonar e, eventualmente, minimizar o risco de complicações pós-operatórias.

3. O exercício físico no pós-operatório imediato diminui a dispneia em pacientes com câncer de pulmão?

Um programa de exercício físico aeróbio personalizado e supervisionado, consistindo em três sessões em cicloergômetro em dias alternados por 14 semanas, praticado a 60% da frequência cardíaca máxima por 15 a 20 minutos no início, com aumentos de duração de 5 minutos a cada semana de acordo com a tolerância do paciente (avaliada por sinais hemodinâmicos, saturação de O2 e aumento na frequência cardíaca máxima até 70%) em pacientes recém-submetidos à lobectomia ou pneumectomia por câncer de pulmão, é capaz de reduzir a queixa de dispneia (médias e desvios-padrão pré e pós-intervenção: 17 ± 5 e 20 ± 5; p = 0,007) medida na avaliação de bem-estar funcional da escala de qualidade de vida FACT-L (Functional Assesment Of Cancer Therapy-Lung).18

Um programa personalizado de caminhada, instituído para pacientes com câncer de pulmão sem indicação cirúrgica ou para pacientes no pós-operatório, com intensidade e frequência dos treinos de caminhada aumentando de acordo com a monitorização de queixa de dispneia, com objetivo de completar um percurso de 10 metros, o maior número de vezes possível, até sintoma de pré-exaustão, mensurado pelas Escala de Borg, duas vezes por semana por sete semanas, melhora a queixa de dispneia medida pela escala de Qualidade de Vida EORTC QLQ-C30 (na média: nota 50 para 33), porém não demonstra superioridade sobre grupo controle no pós-operatório imediato e nem entre os grupos cirúrgico e não-cirúrgico, mas sugere melhora qualitativa no bem estar geral associado à percepção do impacto da dispneia na capacidade física e na redução do ciclo-vicioso da dispneia-sedentarismo. Os pacientes que evitaram exercício por medo da dispneia aderiram à proposta terapêutica com redução dos sintomas, ainda que com poder fraco para conclusões estatísticas7 (B).

Recomendação

Pode ser recomendado exercício aeróbio supervisionado com intensidade moderada no pós-operatório imediato de pacientes submetidos à ressecção pulmonar por neoplasia de pulmão, especialmente sem indicação de quimioterapia adjuvante posterior. A intervenção é segura e promove melhora qualitativa da queixa de desconforto respiratório global ao exercício e da dispneia

4. O exercício físico no pós-operatório imediato diminui a fadiga em pacientes com câncer de pulmão?

Um programa de exercício físico aeróbio personalizado e supervisionado, consistindo em três sessões em cicloergômetro em dias alternados por 14 semanas, praticado a 60% da frequência cardíaca máxima por 15 a 20 minutos no início, com aumentos de duração de 5 minutos a cada semana de acordo com a tolerância do paciente (avaliada por sinais hemodinâmicos, saturação de O2 e aumento na frequência cardíaca máxima até 70%) em pacientes recém-submetidos à lobectomia ou pneumectomia por câncer de pulmão, é capaz de melhorar o cansaço e desconforto nas pernas medido pela avaliação de fadiga (médias e desvios-padrão pré e pós-intervenção: 19 ± 8 e 12 ± 8 p = 0,03) na escala de qualidade de vida FACT-L (Functional Assesment Of Cancer Therapy-Lung).18

Recomendação

Pode ser recomendado exercício aeróbio supervisionado com intensidade moderada no pós-operatório imediato de pacientes submetidos à ressecção pulmonar por neoplasia de pulmão, especialmente sem indicação de quimioterapia adjuvante posterior. A intervenção é segura e promove melhora qualitativa da queixa de fadiga ao exercício.

5. Um programa psicoeducativo com terapia cognitivo-comportamental melhora a qualidade de vida em pacientes com câncer de pulmão?

Um programa psicoeducativo, baseado em habilitação e adoção, por parte dos pacientes, de comportamentos adaptativos para atrasar o agravamento dos sintomas, com os seguintes componentes: informação preparatória, discussão da experiência do sintoma, exploração dos significados e manifestações associadas aos sintomas, consultoria em estratégias de enfrentamento, e treinamento e prática de relaxamento muscular progressivo, realizado para pacientes com câncer de pulmão avançado (estadio 3 e 4) em radioterapia paliativa, é capaz de melhorar os sintomas de ansiedade (p = 0,001), fadiga (p = 0,011), falta de ar (p = 0,002), habilidade funcional (p = 0,001) e sintoma "cluster" (p = 0,003)19 (A).

Uma intervenção psicoeducacional, uma vez por semana, durante quatro semanas, realizada por enfermeiras, abordando orientações educacionais, alimentares e aconselhamento antes do final da vida e posterior acompanhamento mensal até a morte, melhora a qualidade de vida (p = 0,02) e o humor (p = 0,03), mas não melhora a intensidade dos sintomas (p = 0,24), nem reduz os dias de internação hospitalar, ou em unidade de terapia intensiva, nem a procura pelos serviços de emergência, em comparação com pacientes recebendo cuidados oncológicos habituais20 (A).

A terapia cognitivo-comportamental aplicada por enfermeira, em quatro sessões (inicial, após 10, 20 e 32 semanas), em pacientes com câncer de mama (38%), pulmão (35%) e outros tumores sólidos (cólon, ginecológico, linfoma e útero), podem melhorar a funcionalidade, mas o efeito na melhora da funcionalidade é menor quanto maior os sintomas depressivos apresentados pelos pacientes (p < 0,01)21 (B).

Recomendação

Recomendamos um programa psicoeducativo, realizado por profissional de saúde, preferencialmente psicólogo capacitado e com experiência no cuidado de pacientes com doenças crônicas, voltado para orientações para comportamentos adaptativos no dia-a-dia, busca de estratégias de enfrentamento e uso de técnicas de relaxamento para pacientes com câncer de pulmão, em qualquer fase do tratamento e da doença, porém um programa mais intenso para pacientes com estadios mais avançados e durante tratamento específico.

6. Um programa de condicionamento físico em pacientes com câncer de pulmão melhora a tolerância ao exercício?

Um programa supervisionado interdisciplinar de reabilitação, de no máximo 20 sessões, pelo menos cinco vezes por semana, compos-to de atividade aeróbica em cicloergômetro durante pelo menos 30 minutos e de intensidade moderada (60% a 80% da carga máxima), aumenta a tolerância ao exercício físico no teste de caminhada de 6 minutos com média de aumento de 95,6 metros em relação a um grupo controle sem intervenção (p < 0,001)22 (A). O mesmo tipo de treino de atividade física em cicloergômetro e esteira, realizado diariamente, por pelo menos 20 minutos cada atividade, por oito semanas, e com intensidade variando de 60 a 80% da carga máxima e valores de 4 a 6 na escala de Borg, além de fisioterapia motora para manutenção da amplitude de movimento e atividade anaeróbica de fortalecimento de 3 a 15 repetições com carga entre 30-60% de uma repetição máxima (1-RM), leva à melhora do desempenho no teste de caminhada de 6 minutos: pacientes conseguem caminhar uma distância 43,2% maior (p = 0,002)23 (B).

Um programa de exercícios supervisionados no pós-operatório imediato, duas vezes ao dia, e mantido como atividade domiciliar, também diária duas vezes ao dia, supervisionada ao menos uma vez ao mês durante 12 semanas, com atividades motoras para a manutenção da amplitude de movimento, treino de força, marcha, atividade livre em bicicleta estacionária, durante 5 a 10 minutos, cada modalidade, e de intensidade moderada variando de 60 a 80% da frequência cardíaca máxima, não melhora a tolerância ao exercicio no teste de caminhada de 6 minutos (p = 0.47)4 (A).

Recomendação

Programas supervisionados interdisciplinares com treinos aeróbicos de intensidade moderada (60 a 80% da frequência cardíaca máxima) por pelo menos 30 minutos por sessão, três vezes por semana, podem ser recomendados, pois há evidências de que melhoram a tolerância ao exercício, mesmo que a atividade física seja realizada em cicloergômetro ou bicicleta estacionária.

7. A suplementação de ergogênicos (Β-Hidroxi-Β-Metillbutirato (HMB), creatina) associada ao exercício físico reduz a fadiga em pacientes com câncer de pulmão?

Suplementação de creatina, com dose inicial de 5 g 4x/dia, durante uma semana, seguindo de 2,5 g 2 x/dia, até completar oito semanas, melhora a bioimpedância e a relação massa extracelular/massa celular corporal (p = 0,043). Tal efeito é maior em pacientes sem doença metastática e que receberam apenas fluoracil/acido fólico como quimioterapia. Pacientes com tumores em estágio avançado ou recebendo quimioterapia mais agressiva contendo oxaplatina ou irinocetan não têm benefício com a suplementação da creatina24 (A).

Pacientes com caquexia por diversos tipos de tumores sólidos avançados (Estágio III e V) ou com doença metastática, com perda ponderal entre 2 e 10%, não melhoram o peso após suplementação com composto nutricional de L-arginina (14 g/dia), glutamina (14 g/dia) e betahidroxi betametilbutirato (3 g/dia), durante 8semanas de suplementação (p = 0,08)25 (B).

Pacientes com diversos tipos de tumores sólidos avançados (Estágio IV), com perda ponderal > 5% e em curso de diferentes tratamentos, não melhoram o peso por aumento de massa magra, após suplementação com composto nutricional de L-arginina (14 g/dia), glutamina (14 g/dia) e betahidroxi betametilbutirato (3 g/dia), durante 24semanas (p > 0,25)26 (B).

Recomendação

Não é possível recomendar o uso destes suplementos para melhora da fadiga em pacientes com câncer de pulmão por falta de evidências na literatura para essa população específica, e com desfecho de fadiga. Entretanto, conforme exposto acima, há evidências de melhora de alguns parâmetros de bioimpedância em pacientes com neoplasia colorretal e a melhora desses parâmetros tem se mostrado associada à melhor sobrevida e preditores de prognóstico nessa população e isso deve ser levado em consideração na decisão para uso destes suplementos. Mais estudos são necessário parasse avaliar o efeito do uso de ergogênicos como a creatina e Β- hidroxi-Β- metilbutirato (HMB) para melhora da fadiga em pacientes com câncer de pulmão.

8. O guaraná ("Paullinia Cupana") melhora a fadiga em pacientes com câncer de pulmão?

O extrato do guaraná (Paullinia cupana) na dose de 50 mg, duas vezes ao dia, por um período de 21 dias, pode melhorar a fadiga em pacientes com câncer de mama durante quimioterapia em comparação com placebo (p < 0,01), não produz eventos adversos ou toxicidades maiores, não piora a qualidade do sono e também não causa ansiedade ou depressão nessa população27 (B).

Recomendação

O extrato do guaraná na dose de 50mg, duas vezes ao dia, pode melhorar a fadiga em pacientes com câncer de pulmão, embora o estudo que demonstrou benefício tenha sido realizado em pacientes com câncer de mama. Porém, devemos fazer uso com cautela, principalmente em pacientes com cardiopatia, hipertensão arterial sistêmica e idosos, até que mais estudos mostrem a dose segura em relação a efeitos adversos, como aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca.


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