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Número atual: Março 2017 - Volume 24  - Número 1


ARTIGO DE REVISÃO

Eficácia de intervenções para a melhora da resistência muscular em idosos: revisão sistemática de literatura

Effectiveness of interventions in the improvement of muscle resistance in the elderly: a systematic review


Gesylâine Marques Luiz1; Christina Danielli Coelho de Morais Faria2

DOI: 10.5935/0104-7795.20170010

1. Fisioterapeuta, Especialização em Fisioterapia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG
2. Professora Adjunta, Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG


Endereço para correspondência:
Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG / Departamento de Fisioterapia
Prof. Dra. Christina Danielli Coelho de Morais Faria
Avenida Antônio Carlos, 6627
Belo Horizonte - MG CEP 31270-901
E-mail: cdcmf@ufmg.br

Recebido em 21 de Fevereiro de 2017.
Aceito em 24 Abril de 2017.


Resumo

O envelhecimento populacional mundial vem sendo muito discutido na última década. China, Japão e países da Europa e da América do Norte já convivem há muito tempo com um grande contingente de idosos e com todos os problemas associados a este processo de envelhecimento. Porém, a população idosa brasileira, mais especificamente a feminina, vem crescendo de forma acelerada: o processo de envelhecimento no Brasil está ocorrendo em um curto período de tempo. Com o envelhecimento, é comum a perda da massa muscular esquelética como um todo. O comprometimento da força muscular no indivíduo idoso é evidente, uma vez que a perda de fibras do tipo II é maior do que do tipo I. Entretanto, a perda de fibras musculares do tipo I também ocorre durante o envelhecimento e, portanto, características relacionadas a este tipo de fibra, como a resistência muscular, também devem ser consideradas pelos profissionais da área da saúde. Objetivo: Realizar uma revisão sistemática da literatura para determinar a eficácia de programas de intervenção na melhora da resistência muscular em idosos. O objetivo secundário foi avaliar a eficácia destes programas na melhora de outros desfechos funcionais e de saúde nesta população. Método: Revisão sistemática de literatura elaborada conforme o protocolo Prisma (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses), com buscas nas bases de dados MEDLINE, PEDro, LILACS e SCIELO, utilizando-se estratégia de busca específica envolvendo descritores relacionados a idoso e resistência muscular. Foram incluídos estudos publicados em português e inglês, do tipo quase-experimental (QE) ou ensaio clinico aleatorizado (ECA), que envolveram idosos e abordaram a musculatura esquelética de membros inferiores, superiores ou tronco, e que avaliaram a eficácia de intervenções para a melhora da resistência muscular. Resultados: Foi encontrado um total de 133 estudos com a busca eletrônica. Destes, apenas 13 atenderam aos critérios de inclusão, sendo 7 ECA e 6 QE. A média da pontuação obtida pelos ECA na escala PEDro foi de 5,57, enquanto a média obtida pelos QE na escala TREND foi de 18,57. Dentre os sete ECA, todos foram classificados como tendo adequada qualidade metodológica. Conclusão: Segundo os resultados da maioria dos estudos incluídos, os programas de intervenções elaborados seguindo as características específicas do conceito de resistência muscular são eficazes para melhora da resistência muscular e de outros desfechos de funcionalidade e de saúde de idosos saudáveis. São necessários mais estudos que investiguem a eficácia de intervenções direcionadas para a melhora da resistência muscular de idosos que apresentam alguma condição de saúde associada ou incapacidade específica.

Palavras-chave: Treinamento de Resistência, Fadiga Muscular, Idoso




INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional mundial vem sendo muito discutido na última década. China, Japão e países da Europa e da América do Norte já convivem há muito tempo com um grande contingente de idosos e com todos os problemas associados a este processo de envelhecimento.1 Porém, a população idosa brasileira, mais especificamente a feminina, vem crescendo de forma acelerada: o processo de envelhecimento no Brasil está ocorrendo em um curto período de tempo.2

Os idosos no Brasil de hoje representam cerca de 10% da população deste país e apresentam mais problemas de saúde que a população geral.1 Estes fatores caracterizam os desafios a serem enfrentados pelo sistema de saúde e por toda a sociedade brasileira neste processo de envelhecimento populacional do Brasil.3

Envelhecer está associado a um declínio da maioria dos sistemas fisiológicos do corpo, dentre eles o sistema musculoesquelético. Com o envelhecimento, é comum a perda da massa muscular esquelética como um todo.4 Esta perda ocorre, principalmente, por infiltração acentuada de tecido fibroso e adiposo no sistema músculo esquelético e por perda de fibras musculares de todos os tipos, sendo maior a perda de fibras do tipo II (relacionadas à força muscular) do que do tipo I (relacionadas a resistência muscular). Desta forma, as características de desempenho muscular, que incluem força e resistência, ficam comprometidas.5

O comprometimento da força muscular no indivíduo idoso é evidente, uma vez que a perda de fibras do tipo II é maior do que do tipo I.5 Este fato pode ser uma justificativa para o elevado número de estudos relacionados à avaliação e tratamento da força muscular de idosos.6 Entretanto, a perda de fibras musculares do tipo I também ocorre durante o envelhecimento e, portanto, características relacionadas a este tipo de fibra, como a resistência muscular, também devem ser consideradas pelos profissionais da área da saúde.

Na verdade, apesar de a força muscular ser um componente importante do desempenho muscular, destaca-se que mais importante do que o ganho da força absoluta é o ganho de resistência muscular, já que as atividades diárias exigem resistência muscular e não apenas força propriamente dita. Além disso, este comprometimento observado na resistência muscular pode estar associado a importantes características observadas nesta população, como fragilidade, dependência e vulnerabilidade.4

A resistência muscular é geralmente definida como a capacidade de um músculo ou grupo de músculos manterem um determinado nível de força muscular ou a capacidade de executar força de maneira repetitiva. Em outras palavras, representa uma medida da capacidade funcional de um músculo ou grupo muscular.4 A resistência muscular atualmente é considerada como um marcador de saúde, bem-estar, além de ser considerada preditora de mortalidade e independência.7 Foi observado que as idosas caidoras precisavam de mais tempo de recuperação pós-exercício do que idosas não caidoras e mulheres jovens. Neste contexto, alterações da resistência muscular devem ser avaliadas e quantificadas em programas de reabilitação.8 Recomenda-se que estes programas sejam baseados em protocolos que incluam o uso de ações musculares excêntricas e concêntricas bem como múltiplas articulações.9

Especificamente, a melhora da resistência muscular é importante porque as perdas funcionais que ocorrem com os idosos possivelmente estão relacionadas à incapacidade de manterem esforços repetitivos essenciais para executar atividades de vida diária. Uma pequena perda de força devido à fadiga muscular resultará numa resistência muscular, significativamente, reduzida. O incremento da resistência muscular localizada em idosos pode levar à melhora na habilidade para desempenhar tarefas submáximas e atividades recreacionais, levando ao incremento da independência e da habilidade em desempenhar atividades da vida diária. De uma forma geral, pode-se dizer que quanto maior o estado de resistência muscular localizada de um indivíduo, melhor a autonomia no desempenho das AVDs, o que consequentemente propicia melhor qualidade de vida.10

O American College of Sports Medicine (ACSM)11 recomenda que o treinamento contra resistência seja parte integrante de um programa de aptidão física para adultos e idosos. Suas recomendações para idosos incluem pelo menos uma série de 10-15 repetições para os principais grupamentos musculares, com frequência de duas a três vezes por semana.11 Testes de resistência muscular são aqueles em que diversas contrações são realizadas com cargas submáximas.12 O treinamento que visa melhora da resistência muscular deve incluir variação de sobrecarga e dar importância ao intervalo de descanso.9 Já foi demonstrado que exercícios realizados em aparelhos de ginástica 2 vezes por semana durante 12 semanas com sessões de aproximadamente 30 minutos, envolvendo tronco, membros inferiores e superiores melhoraram a resistência muscular e o equilíbrio em idosos.12


OBJETIVO

Considerando a importância da resistência muscular para a funcionalidade e saúde dos idosos, o objetivo primário deste estudo foi realizar uma revisão sistemática da literatura para determinar a eficácia de programas de intervenção na melhora da resistência muscular em idosos. O objetivo secundário deste estudo foi avaliar a eficácia destes programas na melhora de outros desfechos funcionais e de saúde nesta população idosa


MÉTODO

Trata-se de uma revisão sistemática de literatura elaborada conforme o protocolo Prisma (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses)13,14 com todas as etapas executadas por dois examinadores independentes. As divergências entre estes examinadores foram discutidas até atingir um consenso. Na ausência de consenso entre os dois examinadores, um terceiro examinador foi envolvido para tomar a decisão final.

Na primeira etapa, foram realizadas buscas nas bases de dados MEDLINE, PEDro, LILACS e SCIELO, utilizando os descritores elderly ou aging, ou old, ou older combinados com "muscular endurance" ou "muscle endurance". Posteriormente, os estudos encontrados foram avaliados quanto aos seguintes critérios de inclusão: indivíduos de qualquer sexo com idade igual ou superior a 60 anos (idosos), estudos publicados nos idiomas inglês e português até abril/2016, ser do tipo quase-experimental (QE) ou ensaio clinico aleatorizado (ECA), abordando musculatura esquelética de membros inferiores, superiores ou tronco, que tenham avaliado a eficácia de intervenções para a melhora da resistência muscular.

Na segunda etapa, os títulos dos estudos foram avaliados e sendo evidenciado que o estudo claramente não se adequava a algum critério de inclusão, este foi excluído. O mesmo procedimento foi adotado na terceira etapa com análise do resumo dos estudos incluídos na segunda etapa. Na quarta etapa, foi realizada a leitura na íntegra de todos os estudos incluídos na terceira etapa e todos aqueles que atenderam aos critérios de inclusão foram incluídos. Na quinta etapa, foi realizada busca manual ativa em todas as referências dos estudos incluídos a partir da busca nas bases de dados eletrônicas, seguindo os mesmos procedimentos.

A sexta etapa consistiu na avaliação da qualidade metodológica, utilizando-se a escala PEDro15,16 para os ECA e a escala TREND (Transparent Reporting of Evaluations with Nonrandomized Designs)17,18 para os estudos QE. A escala PEDRO é composta de 11 itens, sendo que cada item contribui com 1 ponto (com exceção do item 1 que não é pontuado) e a pontuação final varia de 0 a 10. Considera-se estudo de adequada qualidade aquele com pontuação acima de quatro pontos e de baixa qualidade o estudo que apresenta pontuação abaixo disto.16 A escola TREND é uma guia de orientações composta por 23 itens, sendo que cada item contribui com um ponto para a pontuação total, mas ainda não há critérios determinados para classificar a pontuação final desta escala.17,18

Finalmente, foi executada a sétima e última etapa que envolveu a extração dos dados. Para atender aos objetivos desta revisão sistemática, os seguintes dados foram extraídos dos estudos incluídos: população estudada, tipo de exercício físico realizado, protocolo da intervenção, as variáveis analisadas, a forma de mensuração dos resultados, a conclusão e os desfechos.


RESULTADOS

Foi encontrado um total de 133 estudos nas bases de dados eletrônicas, sendo 96 na base de dados MEDLINE, 30 na SCIELO e sete na PEDro. Nenhum estudo foi encontrado na base de dados LILACS. Na primeira etapa, 63 estudos foram excluídos pela leitura dos títulos. Desses estudos, cinco artigos repetidos dos 65 estudos selecionados para leitura dos resumos, 25 foram excluídos e, portanto, foi realizada a leitura na íntegra de 40 estudos, 27 dos 40 analisados foram eliminados. Portanto, 13 estudos encontrados nas bases de dados eletrônicas forma incluídos. Foi realizada busca manual ativa nestes 13 estudos, porém não foram encontrados novos estudos que atendessem aos critérios de inclusão e pudessem ser incluídos.

Do total de estudos incluídos, sete (53,85%) foram ECA e seis (46,15%) QE. A média da pontuação obtida pelos ECA na escala PEDro foi de 5,57 em um total de 10 pontos, enquanto a média obtida pelos estudos QE na escala TREND foi de 18,57 em um total de 23 pontos. Todos os estudos ECA (100%) foram classificados como de adequada qualidade metodológica (Quadro 1 e 2).






Características dos Participantes

Todos os 13 estudos incluídos apresentavam amostras constituídas por mulheres e homens idosos, com faixa etária entre 60 e 84 anos. A maioria dos estudos (n=9, 69,23%) foi realizada em indivíduos idosos saudáveis (Quadro 3), sendo que em cinco estudos (38,47%) foi especificado que os idosos eram sedentários.




Outros estudos (30,77%) foram realizados com idosos que apresentavam uma condição de saúde específica: dois com indivíduos que sofreram infarto agudo do miocárdio24,27,31 um indivíduo com Doença de Parkinson28 e um com indivíduos idosos com histórico de quedas no ano anterior23 (Quadro 4). Em um estudo realizado com idosos saudáveis, foram incluídos indivíduos com uma característica particular: praticantes de Tai Chi Chuan e corredores26(Quadro 3).




O tamanho das amostras dos estudos variou entre 09 e 112 indivíduos. O número dos grupos de intervenção variou entre um e três grupos (Quadros 3 e 4).

Mensuração da Resistência Muscular

Diferentes métodos foram empregados para a mensuração da resistência muscular. Na maioria dos estudos (69,23%) foi empregado apenas o método de contagem do maior número de repetições de determinado movimento/contração muscular: maior número de flexões de bíceps realizadas com a mão dominante segurando peso de 1,8 Kg30, maior número de repetições até a fadiga de exercícios no aparelho supino (extensão de ombro e cotovelo) e leg press (extensão de quadril e joelho),19 o maior número de contrações concêntricas e excêntricas dos extensores e flexores do joelho.22

Em outros estudos (30,77%) foi realizada a contagem do número de repetições de determinado movimento/contração muscular em um determinado período de tempo (número de flexões abdominais em 30 segundos,23,28 número de repetições em 30 segundos de flexão de cotovelo com rotação interna peso 2 kg25 e número de repetições em 30 segundos com exercícios de sentar e levantar da cadeira25 e uso do tempo que os indivíduos eram capazes de suportar determinada sobrecarga.27 O dinamômetro isocinético foi utilizado em quatro estudos para mensuração da resistência muscular22,24,26,29 (Quadros 3 e 4).

Características dos Programas de Intervenção

As intervenções mais comumente empregadas pelos estudos envolveram o treino da resistência muscular com exercícios de flexão, extensão de quadril, joelho e ombro, em aparelhos de ginástica (n=5; 38,46%)12,19,20,21,25 caminhada (n=4; 30,77%),23,24,25,28 corrida (n=2; 15,38%),26,30 alongamento muscular (n=4; 30,77%),22,23,24,30 treino de coordenação usando bola de borracha e com manipulação de latas (n=2; 15,38%).25,30 A sobrecarga dos treinos variou de 55 a 90 % da resistência máxima, com repetições variando de 8 a 10 repetições. A duração das intervenções variou entre 8 e 24 semanas, sendo as sessões de treinamento com frequência variando entre 2 a 3 vezes por semana com duração entre 30 e 120 minutos (Quadros 3 e 4).

É importante destacar que um dos estudos avaliou se a suspensão do uso do fármaco Creatinina Mono-hidratada em pó via oral (0,3 g / kg de peso corporal / dia durante 5 dias, 0,07g /Kg) traria alguma repercussão na resistência muscular e em outras variáveis. Neste estudo, foi utilizada a Creatinina por 12 semanas, seguido de 12 semanas sem uso deste fármaco no grupo Controle. Após a suspensão, foi feito treinamento muscular dois dias por semana, intervalo de pelo menos 48 horas, três séries de 10 repetições, com um minuto de descanso entre séries, intensidade aproximada de 70% de 1-RM no aparelho leg press, supino e extensão de joelho.

O grupo controle realizou o mesmo treinamento do grupo experimental e fez uso de Creatinina nas primeiras doze semanas, porém nas doze semanas seguintes, apesar de ter continuado a treinar, os integrantes fizeram uso de placebo e não de Creatinina.19

Apenas um dos estudos realizou acompanhamento (follow-up) após o término da intervenção, tendo sido realizadas avaliações 3, 6 e 12 meses após a intervenção.27

Eficácia das Intervenções para Melhora da Resistência Muscular

Em todos os estudos (QE) (100%), que foram realizados tanto com idosos saudáveis (Quadro 1) quanto com idosos com alguma condição de saúde (Quadro 2), os programas de intervenção investigados foram eficazes para melhorar a resistência muscular. Dentre os ECA, em três (42,86%) foi demonstrada a eficácia da intervenção do grupo experimental (GE) na melhora da resistência muscular em comparação ao grupo controle. Os outros quatro (57,14%) estudos não evidenciaram melhora significativa na resistência muscular no grupo intervenção em comparação ao grupo controle.19,22,23,24

Em um destes estudos, a diferença entre o GE e o GC era o uso da Creatinina.19 No outro estudo, o GE recebeu intervenção de treinamento de resistência muscular em água profunda e o GC o treinamento de força em água profunda.25 Nos outros dois ECA, a amostra era constituída por indivíduos com condições de saúde específicas23,24 (Quadro 4).

Eficácia das Intervenções para Melhora de Outros Desfechos Funcionais e de Saúde

Dentre os estudos incluídos, 92,31% (n=12) avaliaram, também, outros desfechos funcionais e de saúde. A força muscular foi o desfecho mais avaliado (n=8; 61,53% dos estudos),19,20,22,23,25,26,28,29 seguido do equilíbrio (n=5; 38,46 % dos estudos),12,23,25, 30 da resistência cardiovascular (n=3; 23,08%),22,25,28,29 da flexibilidade (n=3; 23,08% dos estudos)22,23,30 e da velocidade de marcha (n=2; 15,38% dos estudos).21,23 Outros desfechos, tais como potência muscular, medo de queda e qualidade de vida foram avaliados por apenas um estudo cada, conforme detalhado (Quadros 3 e 4).

Dentre os oito estudos que avaliaram a força muscular, em cinco foi reportada melhora significativa após a intervenção. O equilíbrio apresentou melhora significativa em todos os estudos que avaliaram este desfecho,12,23,25,30 bem como a resistência cardiovascular22,25,28 e a flexibilidade.23,25,30 A velocidade de marcha apresentou melhora significativa em apenas um dos dois estudos que a avaliou.23 A maioria das outras variáveis de funcionalidade e saúde também apresentaram melhora significativa após o treinamento para melhora da resistência muscular, tais como potência muscular, medo de queda e qualidade de vida20,22,27 (Quadros 3 e 4).


DISCUSSÃO

Os objetivos deste estudo foram realizar uma revisão sistemática da literatura para determinar a eficácia de programas de intervenção na melhora da resistência muscular em idosos e a eficácia destes programas na melhora de outros desfechos funcionais e de saúde nesta população idosa. De uma forma geral, as intervenções empregadas, em suas grandes maiorias constituídas por protocolos de treinamento específicos para resistência muscular, foram eficazes para melhora da resistência muscular de idosos e da maioria de outros desfechos funcionais e de saúde que foram avaliados (força muscular, equilíbrio, resistência cardiovascular, flexibilidade, velocidade de marcha, potência muscular, medo de queda e qualidade de vida).

A maioria dos estudos incluídos23,25,26,27,28,29,30 foi do tipo ECA e com classificação adequada da qualidade metodológica. Os demais estudos,11,19,20,21,22,24 do tipo QE, apesar de não contarem com a aleatorização dos indivíduos, importante características dos ECA, tiveram qualidade metodológica adequada segundo os critérios da TREND. Esta escala ainda não apresenta ponto de corte claro para classificar os estudos, mas todos apresentaram pontuação superior a 50%.

Com relação às características dos idosos incluídos nos estudos, destaca-se que a maioria envolvia indivíduos saudáveis, dos quais a maioria era sedentária.11,19,20,21,25,29,30 Entretanto, foram incluídos, também, estudos com idosos que sofreram infarto agudo do miocárdio,24,27 com Doença de Parkinson,28 e com histórico de quedas.23 A abordagem de população diversa é de grande importância, uma vez que investigar a eficácia das intervenções em indivíduos com diversidade de características permite a aplicação dos resultados obtidos em um número maior de indivíduos.

Resistência muscular é definida como a capacidade de um músculo ou grupo de músculos manterem um determinado nível de força muscular ou a capacidade de executar força de maneira repetitiva.4 A adequada avaliação da resistência muscular deve incluir variação de sobrecarga e dar importância ao intervalo de descanso.9 Além disso, a sobrecarga deve ser moderada, com grande número de repetições.

Com a exceção de um estudo,20 a resistência muscular foi avaliada adequadamente por todos os outros estudos. O método de avaliação da resistência muscular questionável foi o que empregou carga de 90% de 1-RM (Repetição Máxima):20 testes máximos não condizem com avaliação resistência muscular.9

Observando as características e os resultados obtidos pelos estudos incluídos nesta revisão sistemática, pode-se afirmar que o emprego de protocolos de treinamento específicos para o treinamento da resistência muscular, seguindo as características essenciais do conceito, são eficazes para a melhora da resistência muscular de idosos. Em um dos ECA foi possível observar que o grupo que fez três series diárias de exercícios de extensão de peitoral, rosca de bíceps, extensão de tríceps, flexão de bíceps, extensão de quadril e joelho, flexão de joelho em aparelhos de musculação, apresentou melhor resultado na resistência muscular do que o grupo que fez os mesmos exercícios em apenas uma série diária.29 Foi possível observar num estudo QE que o grupo que treinou mais vezes por semana com exercícios de flexibilidade do quadril, corrida, coordenação (manipular latas na ordem exigida), flexões de bíceps em 30 segundos com membro superior dominante utilizando peso de 1,8 Kg também apresentou maior melhora na resistência muscular do que o grupo que fez os mesmos exercícios treinando uma e duas vezes por semana.30

No estudo de Nakamura et al.25 também do tipo QE, o resultado foi similar: os indivíduos que treinaram mais vezes por semana também apresentou maior melhora na resistência muscular do que o grupo que treinou uma ou duas vezes por semana.

Quatro (30,77%) estudos não evidenciaram melhora significativa na resistência muscular no grupo intervenção em comparação ao grupo controle. Possivelmente, a imposição de carga máxima nas intervenções ou limitações nos métodos de mensuração da resistência muscular podem estar relacionados a estes resultados.19,22,23,24

Considerando outros desfechos de funcionalidade e saúde avaliados, a força muscular apresentou melhora em cinco dos oito (62,5%) que a avaliaram,23,22,25,26,29 o equilíbrio,11,23,25 a resistência cardiovascular22,25,28 e a flexibilidade23,28,30 apresentaram melhora significativa em todos os estudos que avaliaram estes desfechos, a velocidade de marcha apresentou melhora em um dos estudos23 dentre dois que avaliaram este desfecho, e a maioria das outras variáveis de funcionalidade e saúde também apresentaram melhora significativa após o treinamento para melhora da resistência muscular, tais como potência muscular, medo de queda e qualidade de vida.20,21,27 A melhora destas variáveis associada a melhora da resistência muscular aponta que os protocolos empregados não são apenas eficazes para melhora de um único desfecho, mas de outros desfechos importantes para funcionalidade e saúde de idosos.


CONCLUSÃO

Segundo os resultados da maioria dos estudos incluídos, os programas de intervenções elaborados seguindo as características específicas do conceito de resistência muscular são eficazes para melhora da resistência muscular e de outros desfechos de funcionalidade e de saúde de idosos saudáveis. São necessários mais estudos que investiguem a eficácia de intervenções direcionadas para a melhora da resistência muscular de idosos que apresentam alguma condição de saúde associada ou incapacidade específica.


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